Cível revisional bancário: quando o cálculo redefine o resultado
No contencioso bancário, ações revisionais exigem muito mais do que argumentos jurídicos bem estruturados. Em especial na fase de cumprimento de sentença, a efetividade da defesa está diretamente relacionada à consistência técnica dos cálculos apresentados ou impugnados.
O caso a seguir demonstra como a análise rigorosa dos números, aliada à estratégia processual, foi determinante para afastar uma execução indevida e proteger o patrimônio de uma instituição financeira.
O contexto: execução baseada em valor inconsistente
Em um cumprimento de sentença originado de ação revisional de contrato de financiamento, o exequente indicou como valor devido o montante de R$ 52.965,02, requerendo a execução contra o banco.
O histórico do processo, entretanto, revelava um cenário contraditório:
- Existia laudo pericial homologado, datado de 2013, que havia apurado saldo devedor do banco no valor de R$ 29.183,16;
- O próprio exequente havia apresentado, em momento anterior, cálculos indicando saldo credor em favor do banco de R$ 5.758,87.
Mesmo diante desses elementos, o valor executado foi apresentado sem memória de cálculo capaz de justificar a quantia exigida.
O acionamento técnico: quando o cálculo vira ponto central da defesa
Diante das inconsistências, o escritório parceiro acionou a equipe técnica da Bernhoeft com objetivos claros:
- Verificar a coerência entre os valores apresentados ao longo do processo;
- Analisar a existência e a consistência das memórias de cálculo;
- Avaliar riscos processuais, inclusive a ocorrência de prescrição intercorrente;
- Construir base técnica sólida para sustentação em juízo.
Esse movimento foi decisivo para mudar o rumo da execução.
Levantamento e análise documental
O primeiro passo consistiu na organização e confrontação de todos os documentos relevantes:
- Laudo pericial homologado;
- Cálculos apresentados pelo exequente;
- Petição inicial do cumprimento de sentença;
- Extratos e controles constantes dos autos.
A análise evidenciou incongruência objetiva entre os valores: o montante executado não se sustentava frente ao laudo pericial nem aos próprios demonstrativos do exequente.
Análise técnica dos cálculos apresentados
A equipe técnica realizou a verificação minuciosa das memórias juntadas, identificando falhas críticas, entre elas:
- Ausência de planilha que justificasse o valor de R$ 52.965,02;
- Erros de sinalização entre valores devedores e credores;
- Atualizações aplicadas sem qualquer fundamentação técnica.
Ficou demonstrado que, sem memória de cálculo válida, o valor indicado não possuía liquidez, inviabilizando sua exigibilidade.
Avaliação do risco temporal: prescrição intercorrente
Além dos erros numéricos, o caso revelou um ponto ainda mais sensível: o fator tempo.
A análise cronológica indicou:
- Laudo pericial homologado em 2013;
- Trânsito em julgado da decisão em 07/06/2018;
- Ajuizamento do cumprimento de sentença apenas em 27/09/2023.
O intervalo entre o trânsito em julgado e a execução ultrapassou 5 anos, caracterizando prescrição intercorrente, nos termos do art. 206, §5º, I, do Código Civil, combinado com o art. 924, V, do CPC.
Essa constatação foi devidamente fundamentada e integrada à peça de defesa.
Construção da argumentação processual
Com base nos achados técnicos, foi estruturada uma argumentação sólida, demonstrando:
- A impossibilidade de liquidez do valor executado sem memória de cálculo;
- A contradição entre os documentos constantes dos autos;
- A ocorrência da prescrição intercorrente, independentemente de alegadas dificuldades operacionais;
- A exigibilidade do título desde o trânsito em julgado.
O cálculo deixou de ser apenas um elemento acessório e passou a sustentar o núcleo da tese defensiva.
Resultado alcançado
A atuação técnica e estratégica gerou um desfecho altamente favorável ao banco:
- O juízo acolheu a tese da prescrição intercorrente;
- O cumprimento de sentença foi extinto com resolução de mérito;
- O pedido executivo de R$ 52.965,02 foi integralmente afastado;
- O exequente foi condenado ao pagamento de custas processuais e honorários sucumbenciais, fixados em 10%.
Na prática, nenhum valor foi devido.
Impacto para o cliente
O impacto da atuação foi direto e mensurável:
- Eliminação de risco financeiro decorrente de execução indevida;
- Preservação da posição patrimonial do banco;
- Fortalecimento da estratégia defensiva para demandas revisionais futuras.
Mais do que evitar um pagamento, o caso reforçou a importância da leitura técnica do cálculo como instrumento de proteção jurídica.
O cível revisional bancário exige atenção técnica em todas as fases do processo, especialmente no cumprimento de sentença. Valores apresentados sem memória de cálculo, aliados à inércia temporal, podem e devem ser enfrentados com rigor técnico.
Esse case evidencia que a combinação entre análise contábil precisa e estratégia processual bem construída transforma diferenças numéricas em argumentos jurídicos decisivos e redefine completamente o resultado da demanda.
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