Receita em dólar: o que muda na contabilidade de empresa brasileira operando nos EUA (LLC/C-Corp)

Ultima atualização: 20.02.2026

Abrir empresa nos EUA é simples. Operar em dólar com controle, não. 

Abrir uma LLC nos Estados Unidos é relativamente simples. O processo costuma ser rápido, digital e, muitas vezes, mais ágil do que abrir uma empresa no Brasil. Por isso, muitos founders acreditam que a internacionalização começa e termina no ato da abertura da empresa. 

Na prática, é justamente aí que o desafio começa. 

Quando a receita passa a ser em dólar, a lógica contábil, fiscal e financeira muda de forma profunda. Não se trata apenas de trocar a moeda do faturamento. Você passa a lidar com câmbio na DRE, regras de reconhecimento de receita, intercompany, consolidação gerencial e obrigações de compliance em dois países ao mesmo tempo. 

Este conteúdo é voltado para empresas SaaS, e-commerce e prestadores de serviços que já faturam nos EUA ou que estão em processo de internacionalização. O objetivo é mostrar, de forma prática, o que realmente muda na contabilidade quando a operação vira cross-border e por que tratar isso como detalhe operacional costuma gerar ruído, imposto desnecessário e perda de controle. 

Operar em dólar não é apenas faturar em outra moeda 

Quando uma empresa brasileira começa a faturar em dólar, seja por meio de uma LLC, C-Corp nos EUA, ou por contratos diretos com clientes no exterior, ela entra automaticamente em um novo nível de complexidade. 

A moeda da receita influencia: 

  • Reconhecimento contábil (quando a receita “nasce” e como ela é registrada) 
  • Análise de desempenho (MRR/ARR/margem podem ficar distorcidos) 
  • Volatilidade do resultado (câmbio pode “comandar” a DRE) 
  • Fluxo de caixa e previsibilidade (timing de recebimento e conversão muda tudo) 
  • Relatórios e tomada de decisão (você passa a precisar de visão integrada Brasil–EUA) 

Em outras palavras: não existe mais uma única lógica contábil. Há, no mínimo, duas realidades (Brasil e EUA) que precisam conversar. 

Câmbio: o primeiro impacto visível (e o mais subestimado)  

O câmbio costuma ser o primeiro ponto de atenção quando a receita passa a ser em dólar. Só que muita empresa trata isso apenas do ponto de vista do caixa, ignorando os efeitos contábeis. 

O que muda na prática 

  • A variação cambial pode alterar o resultado mesmo sem mudança real de performance. 
  • Uma empresa pode crescer em USD e, ainda assim, ver oscilações relevantes em BRL. 
  • Quando não há critério claro, a DRE vira “gráfico do dólar”, e não do negócio. 

Exemplo simples (bem comum) 

Você emite a fatura em USD em janeiro, recebe em fevereiro e converte para BRL em março. 

Se a contabilidade não tiver uma regra clara para cada momento (faturamento, recebimento e conversão), o resultado contábil pode ficar inconsistente e isso bagunça margem, CAC payback e até o runway. 

Reconhecimento de receita: vender fora muda as regras do jogo 

SaaS, e-commerce e serviços digitais vivem de contratos contínuos, recorrência e, muitas vezes, pagamentos antecipados. Quando a receita passa a ser gerada nos EUA, o reconhecimento contábil costuma exigir mais disciplina e padronização. 

Aqui, a pergunta não é só “onde está o cliente?”. É principalmente: 

  • Qual entidade está vendendo? (Brasil ou EUA) 
  • Em qual moeda? 
  • Qual critério de reconhecimento está sendo aplicado? 
  • Como isso aparece no consolidado gerencial? 

Onde as empresas mais erram 

  • Registrar a receita “onde está o cliente”, e não “onde está a entidade que vendeu”. 
  • Misturar critérios de reconhecimento e depois tentar “corrigir” no consolidado. 
  • Descobrir tarde demais que o problema não é vender, é como a receita foi registrada desde o início. 

Exemplo rápido (SaaS) 

Plano anual pago à vista em USD: se você registra tudo como receita no mês do pagamento, você pode inflar MRR/ARR e distorcer margem. No consolidado, vira retrabalho — e o indicador perde credibilidade. 

Intercompany: o coração da operação Brasil–EUA 

Quando uma empresa brasileira opera nos EUA, é muito comum que a maior parte dos custos continue no Brasil: tecnologia, marketing, produto, operações. Ao mesmo tempo, a receita entra em USD pela estrutura nos EUA. 

Essa “divisão” exige uma relação intercompany bem definida. 

Intercompany não é só repasse financeiro. Envolve: 

  • Contratos entre as entidades 
  • Critérios de alocação (rateio) 
  • Política de preços/repasse (como se determina o valor) 
  • Coerência contábil (para o resultado econômico bater com o contábil) 

Principais sinais de risco 

  • Custos concentrados no Brasil enquanto a receita está nos EUA. 
  • Não existe contrato formalizando prestação de serviços entre entidades. 
  • Repasses são irregulares (“quando sobra caixa”) ou sem critério documentado. 
  • A margem “some” em um país e “aparece” no outro, sem explicação. 

Isso impacta imposto, margem e também a percepção de risco para investidores, bancos e auditorias. 

Consolidação gerencial: uma operação, dois países, um único número 

Ter duas contabilidades “certinhas”, uma no Brasil e outra nos EUA, não resolve sozinho. A liderança precisa de uma visão integrada: um número só para decisão. 

Sem consolidação, o founder/CFO enxerga dois conjuntos de dados que não conversam. Isso atrapalha: 

  • planejamento de crescimento, 
  • leitura de performance, 
  • decisões de contratação, 
  • investimento em marketing, 
  • e gestão de caixa (burn e runway). 

Consolidação não é “somar balanços” 

Ela normalmente exige: 

  • Eliminar transações intercompany (para não duplicar receita/custo) 
  • Padronizar critérios contábeis entre as entidades 
  • Tratar corretamente o impacto cambial 
  • Ajustar a leitura gerencial para refletir a operação real 

 Quando bem feita, a consolidação devolve clareza. Quando mal feita, gera mais confusão do que informação. 

Compliance nos dois países: obrigações não se anulam 

Abrir empresa nos EUA não elimina obrigações no Brasil. E manter operação no Brasil não dispensa cuidados fiscais e contábeis nos EUA. 

Cada país tem regras, prazos e exigências. O erro comum é priorizar um lado e tratar o outro como “simples” ou “para depois”. 

Na prática, a falta de coordenação entre as frentes pode gerar: 

  • atrasos e multas, 
  • retrabalho recorrente, 
  • inconsistências de números, 
  • e fricções operacionais (bancos e plataformas de pagamento são sensíveis a isso). 

Impactos diretos na gestão financeira e no runway 

Quando a contabilidade não reflete corretamente a operação internacional, o impacto aparece rápido na gestão financeira. Burn rate, runway e necessidade de capital passam a ser calculados com base em números frágeis. 

Empresas que faturam em USD, mas gastam majoritariamente em BRL, precisam enxergar com clareza: 

  • qual parte do resultado é operação, 
  • qual parte é câmbio, 
  • e como isso afeta caixa e tomada de decisão. 

Sem isso, dá para crescer “no dashboard” e apertar “no caixa”, e ninguém entende o porquê. 

O erro mais comum: tratar internacionalização como projeto pontual 

Muitas empresas tratam a internacionalização como um projeto com início, meio e fim. Abrem a LLC, estruturam banco, conectam Stripe e seguem operando como antes. 

O problema é que a operação mudou, mas a lógica contábil não acompanhou. 

Contabilidade Brasil–EUA não é um setup inicial. É um processo contínuo que precisa evoluir junto com o negócio. À medida que a empresa cresce, novas camadas aparecem — e a estrutura contábil precisa estar preparada para absorver isso sem virar crise a cada fechamento. 

Como a Bernhoeft reduz fricção na operação cross-border 

Operar entre Brasil e EUA sem fricção exige mais do que “conhecimento técnico isolado”. Exige visão integrada, processos claros e capacidade de transformar complexidade em informação útil para decisão. 

A Bernhoeft atua justamente nesse ponto, apoiando empresas com: 

  • estruturação contábil e fiscal Brasil–EUA, 
  • rotina de BPO para fechar com consistência, 
  • desenho e sustentação de intercompany, 
  • consolidação gerencial para decisão, 
  • e coordenação de compliance em dois países. 

 O foco não é só “cumprir obrigação”. É criar uma estrutura que permita escalar sem perder controle. 

Se sua empresa já fatura em dólar (ou está começando), fale com a Bernhoeft para estruturar a contabilidade cross-border e transformar números em previsibilidade. 

Crescer fora do Brasil exige governança

Em resumo, abrir uma empresa nos Estados Unidos pode ser simples. Operar em dólar com controle contábil, fiscal e gerencial, não. 

Câmbio, reconhecimento de receita, intercompany, consolidação e compliance precisam ser tratados de forma integrada. Ignorar esses pontos gera ruído, imposto desnecessário e perda de visibilidade. 

Para empresas SaaS, e-commerce e serviços que estão internacionalizando, investir em uma contabilidade Brasil–EUA bem estruturada é investir em clareza, controle e crescimento sustentável. 

FAQ: dúvidas comuns de empresas brasileiras operando nos EUA 

1) Receita em dólar precisa aparecer na contabilidade do Brasil

Em geral, sim: a gestão e as obrigações brasileiras costumam exigir que os números sejam refletidos de forma adequada aqui, mesmo que a receita esteja entrando nos EUA. O “como” depende da estrutura (LLC/C-Corp), de onde está a operação e de como você consolida. 

2) Qual câmbio usar: do faturamento, do pagamento ou da conversão? 

Depende do evento. Normalmente, cada momento (faturamento, recebimento e conversão) pode gerar impactos diferentes. Sem política definida, você cria ruído e perde comparabilidade mês a mês. 

3) Abrir uma LLC nos EUA muda minhas obrigações no Brasil? 

Normalmente muda, sim, porque você passa a ter uma estrutura no exterior e fluxos internacionais. O impacto exato depende de quem são os sócios, como a entidade é tratada e como o dinheiro circula entre Brasil e EUA. 

4) Como organizar intercompany quando o time está no Brasil e a receita nos EUA? 

Com contrato, critério de rateio e rotina. Intercompany precisa ser “explicável”: por que o repasse existe, como é calculado e como aparece nos números (sem duplicar ou sumir com margem). 

5) Preciso de contabilidade nos EUA mesmo sem funcionário lá? 

Em muitos casos, sim, porque a entidade nos EUA gera receitas, custos e obrigações. O nível de complexidade depende do tipo de entidade e do modelo operacional. 

6) Por que meus indicadores (MRR/ARR/margem) ficaram “estranhos” depois de vender em USD? 

Porque câmbio + reconhecimento de receita + estrutura (qual entidade vende) podem distorcer os indicadores quando não há padronização. A correção costuma passar por critério, consistência e consolidação gerencial. 

7) “Ter duas contabilidades” resolve? 

Ajuda, mas não resolve sozinho. Sem consolidação gerencial (com eliminação de intercompany e tratamento de câmbio), você continua com dois números que não conversam. 

8) Qual é o primeiro passo para organizar isso sem travar a operação? 

Em geral: (1) mapear o fluxo de receita e caixa, (2) definir política de câmbio e reconhecimento, (3) estruturar intercompany, e (4) criar rotina de consolidação e compliance.