Reforma Tributária: o que muda e quais os impactos para empresas e para o RH?
A Reforma Tributária brasileira é um dos temas mais importantes para negócios, contabilidade, gestão fiscal e também Recursos Humanos. Após décadas de debates, a Emenda Constitucional nº 132 de 2023 foi sancionada e começou a reconfigurar o sistema de tributos no país.
Mas o que isso significa na prática? E por que essa discussão não deve ficar apenas na mesa do Departamento Fiscal ou da diretoria financeira? Neste artigo, vamos descomplicar a Reforma Tributária, mostrar as mudanças principais e, sobretudo, explicar como isso impacta as empresas e o RH no seu planejamento, cultura e rotina de pessoas.
O que é a Reforma Tributária no Brasil?
Aprovada em dezembro de 2023, a Reforma Tributária representa a maior reorganização do sistema fiscal brasileiro em mais de 30 anos. O objetivo central é simplificar o sistema de tributos, reduzir a cumulatividade (ou “tributação em cascata”), promover maior transparência e reduzir a complexidade que historicamente sobrecarrega empresas de todos os portes.
Principais mudanças
- Unificação de diversos tributos sobre o consumo: os antigos ICMS (estadual), ISS (municipal), IPI (federal), PIS e Cofins (federais) são substituídos por dois novos tributos principais:
- CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços): federal;
- IBS (Imposto sobre Bens e Serviços): estadual/municipal. Esses tributos têm base semelhante ao que, em muitos países, é chamado de IVA (imposto sobre valor agregado).
- Fim da tributação cumulativa entre etapas produtivas: ao adotar um modelo de não cumulatividade, o novo sistema busca compensar de forma direta a tributação já paga em etapas anteriores da cadeia produtiva.
- Criação de um imposto seletivo (IS): voltado para produtos prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente, com o objetivo de desestimular seu consumo.
- Nova redistribuição de receita entre entes federativos: a reforma redefiniu como será a divisão de recursos entre União, estados e municípios, buscando maior equilíbrio e simplificação fiscal.
Essas mudanças não são apenas do campo jurídico: elas influenciam diretamente na precificação, competitividade, revisão de processos e estruturas internas das empresas.
O impacto da Reforma Tributária nas empresas
A transição para a nova estrutura tributária impacta a forma como as empresas calculam, recolhem e gerenciam seus impostos. Isso significa mudanças em sistemas contábeis, processos de faturamento, estruturas de preço e até contratos com fornecedores e clientes.
1. Adequação de sistemas e tecnologia
Com a Reforma Tributária:
- Sistemas de ERP e emissão fiscal precisarão ser atualizados para lidar com CBS e IBS;
- Layouts de notas fiscais serão revisados;
- Novas obrigações acessórias serão exigidas.
Especialistas indicam que, mesmo antes do início do pagamento efetivo dos novos tributos, as empresas precisarão emitir e receber documentos fiscais já compatíveis com as novas exigências, sob pena de paralisação de faturamento ou inconsistências no processo operacional.
2. Revisão de processos internos
A reforma requer uma revisão profunda dos processos fiscais, contábeis e operacionais:
- Reconciliações e conferências tributárias;
- Adequação de centros de custo e políticas contábeis;
- Gestão integrada entre financeiro, contabilidade, vendas, compras e fiscal.
Um levantamento recente revelou que 60% das empresas preveem impactos em seus negócios com a Reforma Tributária, mas apenas uma pequena parte se considera realmente preparada para isso.
Especialistas destacam que, sem um plano de transição estruturado, essas mudanças podem gerar:
- Aumento de custo operacional;
- Riscos de não conformidade;
- Erros fiscais;
- Dificuldade de emissão/recebimento de notas.
3. Competitividade e modelo de negócio
A unificação de tributos e a não cumulatividade podem reduzir o “custo Brasil” e permitir uma competitividade maior no médio e longo prazo. Estudos sugerem que, com a reforma, o PIB brasileiro pode ter crescimento adicional em torno de 12% em 15 anos, além de potencialmente gerar milhões de empregos.
Por outro lado, a transição precisa ser bem gerida. A complexidade da mudança exige planejamento de:
- Precificação de produtos e serviços;
- Negociação com fornecedores;
- Contratos de longo prazo revisados;
- Monitoramento contínuo de regulamentação.
E quanto ao RH, por que a Reforma Tributária é importante?
Muita gente pensa que reforma tributária é tema apenas fiscal. Mas isso não é verdade. Quando falamos em recursos humanos, os impactos vão muito além de cálculos de remuneração ou folha.
A Reforma Tributária pressiona áreas como:
1. Orçamento de pessoal e projeções de custos
Com mudanças na tributação sobre o consumo e potenciais ajustes em tributos ligados à folha (em algumas versões de regulamentação), as empresas precisam recalcular projeções de custos com pessoal e benefícios. Isso afeta o planejamento orçamentário, projeções de salários, benefícios e incentivos.
Além disso, muitas organizações precisarão lidar com:
- Novos cenários de carga tributária;
- Impacto em planos de remuneração variável;
- Ajustes no fluxo de caixa a partir das novas datas e formas de recolhimento.
Embora ainda em discussão, esse possível impacto tributário ligado às operações de folha e renda deve entrar no radar do RH estrategicamente.
2. Aumento da demanda por inteligência fiscal e tecnologia
A pesquisa da Robert Half mostra que apenas 11% das empresas se dizem prontas para a Reforma Tributária, enquanto metade reconhece estar em processo de adaptação e uma boa parte ainda está começando a análise.
Isso tem implicações diretas para o RH:
- Necessidade de pessoas qualificadas em tributos e tecnologia;
- Investimento em capacitação da equipe interna;
- Recrutamento de especialistas em compliance fiscal e fiscal digital;
- Integração entre fiscal, RH e tecnologia da informação para entender como a reforma impacta processos internos.
Como a reforma será sentida por toda a cadeia de processos, o RH precisa estar presente em discussões que antes ficavam isoladas no departamento fiscal.
3. Gestão de benefícios e políticas internas
Outro ponto relevante são os possíveis impactos em benefícios ligados à remuneração, planejamento financeiro dos colaboradores e incentivos fiscais.
Algumas alterações previstas podem:
- Influenciar a forma como benefícios são tributados ou classificados;
- Exigir ajustes em políticas de reembolso;
- Impactar programas de incentivos e compensações.
Isso exige que áreas de RH e DP trabalhem juntas para reorganizar políticas de remuneração e benefícios, antecipando mudanças e comunicando com clareza interna.
Desafios e caminhos para adaptação
1. Planejamento antecipado
Empresas que começam cedo a analisar os efeitos da reforma têm vantagem competitiva. Isso inclui:
- Revisar processos fiscais e tributários;
- Mapear riscos e oportunidades;
- Integrar times de fiscal, financeiro, RH e tecnologia;
Contratar consultoria especializada.
2. Tecnologia e automação
Atualizar sistemas de emissão fiscal, integrar ERPs e automatizar processos tributários ajuda não só na conformidade, mas também libera equipes para tarefas estratégicas.
3. Capacitação e governança
Reforma Tributária não é só uma mudança de cálculo: é uma mudança de mentalidade e modelo de negócios. Preparar lideranças e times para entender o impacto de forma holística é essencial.
Além do tributo, um chamado à estratégia
A Reforma Tributária configura-se como um marco histórico para o cenário empresarial no Brasil, uma nova era do sistema fiscal brasileiro. Ao simplificar um sistema tradicionalmente complexo, ela promete uma estrutura mais clara e condizente com as normas globais.
A transição dos antigos tributos (PIS, Cofins, ICMS e ISS) para a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) visa extinguir o efeito cascata e desburocratizar a rotina fiscal. Na prática, isso se traduz em:
- Maior previsibilidade financeira;
- Transparência na composição de custos;
- Facilidade no cumprimento de normas legais.
Muito mais do que números: uma evolução operacional
Embora pareça uma mudança puramente técnica, a Reforma é um convite para repensar a estrutura da folha sob uma ótica tributária. Com a possibilidade de gerar crédito, a terceirização deixa de ser apenas uma decisão operacional e passa a ser uma alavanca de eficiência financeira.
A criação da CBS e do IBS muda a lógica de tributação para um modelo não cumulativo. Isso permite que as empresas gerem e aproveitem créditos sobre os serviços contratados.
Hoje, a folha de pagamento interna não gera crédito tributário. Mas, quando a empresa terceiriza a folha, esse serviço passa a ser uma despesa tributada por IBS e CBS, ou seja, passa a gerar crédito para abatimento de impostos.
É nesse ponto que surge uma oportunidade concreta de posicionar o RH como protagonista estratégico. Ao lado das áreas Fiscal e Financeira, o RH pode participar ativamente da reestruturação de custos, avaliando modelos que, além de garantir eficiência operacional, tragam ganho tributário mensurável.
O sucesso nessa transição depende de:
- Análise integrada de custos: comparar o modelo interno com o terceirizado sob a ótica da geração de crédito.
- Governança e compliance: assegurar que os créditos sejam apropriados com segurança.
- Eficiência operacional: reduzir a estrutura interna e direcionar energia para atividades estratégicas.
Mais do que reagir às novas regras, as organizações que utilizarem a Reforma Tributária para revisar sua estrutura operacional poderão transformar custos fixos em oportunidades de economia tributária. Nesse cenário, o RH assume papel central na construção de uma operação mais inteligente, financeiramente eficiente e alinhada à estratégia do negócio.
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